terça-feira, 25 de agosto de 2015

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come

Era manhã de outono, as folhas caiam, o clima mudava repentinamente e eu despertava para mais uma manhã de trabalho.
Costumava ir caminhando até o trabalho, pois falavam por aí que era bom para a saúde e, afinal, o escritório só ficava há três quadras e meia de casa. logo, por que não?
O caminho até que não era ruim de se passar, já que meu bairro era composto por casinhas oriundas do século XIX, com seus largos jardins e cercas brancas. Parecia mesmo um condomínio fechado ou um bairro típico de filmes americanos.
As pessoas não se mostravam simpáticas, nem apáticas. Simplesmente, não se mostravam.
Todos tinham uma rotina conturbada, horários apertados, crianças para levar para lá e para cá.
Alguns passeavam com os cachorros, outros espantavam os cachorros.
Alguns corriam para pegar o ônibus, enquanto outros freavam suas mini-vans para não atropelá-los.
Em meio a esse caos, havia apenas uma pessoa, um senhor distinto e macabro que morava logo a duas casas depois da minha, do outro lado da rua: o Sr. Healy.
O Sr. Healy tinha um passado tão obscuro, talvez tão macabro, quanto a sua existência. Ninguém sabia ao certo quem era aquele homem, somente que dotava apenas da companhia de seu inseparável cachorro. Às vezes, eu achava que o bicho havia sido ressuscitado como naquele filme "Cemitério Maldito", pois nunca aparentava envelhecer.
Todas as manhãs, o Sr. Healy sentava-se na sua varanda com o seu cachorro e fumava um cachimbo. Não se mexia até o meio-dia, quando voltava para dentro de casa e só era visto apenas na manhã seguinte.
Infelizmente, eu tinha que passar em frente à casa do velho. Não tinha como evitar.
Sempre conseguia ignorar a existência daqueles dois indivíduos inumanos, mas não pude evitar naquele dia. Algo dentro de mim me impulsionou a diminuir o passo e a olhar para os dois espécimes indecifráveis no topo da varanda.
Sem perceber, eu olhava fixamente para o Sr. Healy, porém, sem qualquer julgamento, ou pensamento. Minha mente se esvaiu e meu corpo congelou. Hipnotizei.
O cachorro latiu e, como um estalo, voltei do transe assustado.
"O que acabou de acontecer?", indaguei internamente.
O que teria sido aquilo? Por que não me movi? Ou pior, por que eu parei de andar?
Enquanto autoanalisava minha discórdia interna e minha incapacidade momentânea, cheguei ao trabalho sem nem lembrar se havia andado até lá ou flutuado, ou mesmo se o Sr. Healy havia percebido a minha sutil invasão visual.
Sentia-me estranho, meio incapaz e com um certo medo. Não conseguia me concentrar no trabalho, pensei que era sono, ou algo assim e fui pegar um café.
Após pegar o café, no caminho de volta a minha mesa, um onda de desespero tomou meu corpo e eu senti como se minha gravata quisesse me sufocar. Corri para o banheiro como se não houvesse amanhã.
Tentei tirar a gravata pelo nó e não consegui. Puxei com força e acabei rasgando-a.
"Oh, merda!", pensei, mas consegui respirar, finalmente.
Olhei no espelho e meu pescoço tinha marcas vermelhas que a gravata tinha deixado.
Nunca havia ouvido falar de gravatas que se apertam sozinhas, mas, como já havia me livrado dela, não me importei muito, porém meu coração ainda estava acelerado e eu estava suando como um maratonista.
Pensei que fosse o café. Olhei para a xícara e vi que não tinha dado um gole sequer.
Estranhei. Calor.
Comecei a sentir muito calor.
Tirei a camisa e enfiei minha cabeça em baixo da torneira da pia.
Deixei a água escorrer e fechei os olhos.
Por um momento, cheguei a pensar que aquilo não era uma boa ideia.
Quando abri os olhos, tudo estava escuro e não havia mais água escorrendo sobre a minha cabeça.
Esfreguei meus olhos, com a esperança de que fosse apenas um atraso entre a minha ação e as sinapses do meu cérebro, mas nada aconteceu. Tudo estava um breu.
Não sabia onde eu estava. Se era o banheiro ou qualquer outro lugar.
"Devo ter desmaiado. Sabia que devia ter tomado café da manhã", concluí mentalmente. Afinal, aquilo só podia ser um sonho ou coisa parecida.
Como não me restava mais nada a não ser acordar, resolvi botar em prática o conhecimento que adquiri durante anos assistindo desenhos animados: me beliscar.
Senti a dor, o que foi estranho até, já que era um sonho, mas não acordei.
Ainda estava um breu. Sem nada para apoiar, nem mesmo a pia que deveria estar a minha frente.
Tentei manter a calma, mas o mesmo sufoco que eu senti com a gravata apareceu. Só que dessa vez, não tinha nada para me estrangular.
Finalmente, entrei em desespero e a calma foi embora.
Queria correr, mas para onde?
Gritei. Ou imaginei que gritei, porque som nenhum foi emitido.
Quando estava prestes a correr, senti um ar quente sobre mim. Uma respiração ofegante.
Olhei para cima e, como não enxerguei nada, corri.
Tinha algo atrás de mim. Algo muito ruim e grande. Parecia ser muito grande. Os passos eram pesados e largos, e eu sentia seu hálito queimar minha orelhas a cada passo.
Corri mais ainda até que tropecei em alguma coisa.
- PARE!
Alguém ordenou, a voz ecoou pelo lugar e eu ouvi os passos diminuírem.
Só ouvia a respiração ofegante do meu predador e sentia seu hálito levantar meus cabelos.
click
Um barulho de interruptor soou e um clarão pairou sobre mim. Somente, sobre mim.
Como um protagonista de uma peça de teatro em seu monólogo, levantei insolentemente e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, algo me botou novamente ao chão. Dessa vez, encolhi-me feito um rato encurralado. Abracei minhas pernas e chorei de desespero. Acho que nunca havia chorado assim antes.
click
Outro interruptor acendeu uma luz e uma porta surge bem a minha frente.
"Não deveria entrar aí", enquanto pensava isso, senti o hálito ficar mais forte e úmido, como uma boca aberta.
Não pensei, sequer conseguia raciocinar, e, num salto, corri em direção à porta.
Estava destrancada.
Empurrei e entrei.
"Consegui! Não fui devorado!"
BAM
Senti um baque na cabeça e caí desmaiado.
Dessa vez, acho que eu estava dormindo de verdade. Não sabia mais o que era real ou não.
Fui despertando e, se antes não havia luz, agora havia luz demais como num hospital, mas, definitivamente, aquelo lugar não era um hospital
Eu estava deitado numa sala - ou um quarto. "Porão!", deduzi, após ver um escada logo a frente.
O ambiente estava bem iluminado e estava tomado por móveis velhos e poeira.
Tentei me virar e... "Preso!",eu estava preso.
Mãos, pés e cabeça.
- AAAAAH! - finalmente consegui emitir algum som e gritei sem parar. Agitava os braços e as pernas, na esperança de arrebentar o que me prendia. Em vão.
- CHEGA! - a mesma voz ordenou de algum lugar.
Ouvi o atrito de objetos cortantes, como se fossem facas sendo afiadas.
Parei de gritar e tentei localizar o emissor. Vi um vulto se mexer ao fundo da sala, mas não pude identificar nada mais. Parei de me mexer e soltei o único nome que me veio à cabeça:
- Sr... Sr. Healy?
- Haha! - a coisa riu sarcasticamente - Não, meu jovem. Agora, não importa quem é, não acha?
- O que... o que está acontecendo? O que eu fiz? Onde estou? Quem...
- CALE-SE! - gritou ferozmente, quase rugindo - Você fala demais para quem pediu por tudo o que passou.
Ouvi passos em minha direção e o mesmo ar quente começou a chegar até mim.
"Como assim? Eu pedi?"
Antes que essas palavras pudessem sair da minha boca, consegui virar meus olhos na direção da coisa, ouvi o sibilar de algo cortando o ar e...
"O cachorro!"
Minha cabeça.